“Deixa doer com força... Vai machucar? Vai. Vai doer até você não aguentar? E como vai... Vai sangrar? Muito. Mas é melhor assim. Quanto mais a gente deixa a dor doer, mais rápido ela gasta.”
13 de setembro de 2011
Sem Título [V]
Com o guarda-chuva na mão, subi a rua da Bahia com passos lentos, respirando cuidadosamente o ar úmido de outubro. Esbarrando em vultos molhados, entrei no Maleta e fui para o bar de sempre, na sobreloja. Sentei de frente para a rua e, entre um gole e outro de cerveja, observava o nada com os olhos vazios e os ouvidos atentos. Era a mesma mesa em que o Zé, meses atrás, sentara comigo e, com olhos profundos, murmurou aquele que eu ainda considero o melhor conselho do mundo:
23 de julho de 2011
Reminiscências de um ser que chove
Chega! Meu copo transbordou! E foi só a primeira gota. Apenas uma gota. Mesmo assim eu inundei. Virei enxurrada. Uma correnteza. Levando tudo. Destruindo e matando. Uma enchente, maremoto, tsunami. Arrancando árvores, raízes, tudo. Ressaca. Mas uma hora eu seco. E viro nuvem. E vou por aí, gasoso, chovendo em alguma horta morta, algum pomar ressequido de ódio. Gotejando num fluxo contínuo. Tempestade. Dessas cheias de vento e granizo e raios e trovões. Tufão! Que dão medo em todos. Que atormentam crianças. Ai de mim! Mas a nuvem também some, desaparece do céu. Vira poça. Dessas, pequenininhas, em que todos pisam. Um misto de água e barro. Sujeira. Lixo. Esgoto. Ai de mim! Triste sina de quem sonha em ser mar. Mas não nasceu nem para ser lagoa.
12 de julho de 2011
Paisagem Noturna
E era melhor assim, que eu não conhecesse o que viria a seguir. Que tudo fosse surpresa, descoberta. Imprevisível. Que o tempo simplesmente resvalasse em nós. Cortando nossas faces. Sussurrando no ouvido frases impronunciáveis. Enquanto mirava aqueles olhos azuis desleixadamente emoldurados entre os cachos vermelhos, eu destrinchava toda a sua miudeza. Aquela compostura forçada de quem finge completamente aquilo que tem de mais verossímil. E seus dedos lá, enrolando os caracóis. Quase num ritual obsessivo. E o tempo parado.
“Você não tocou na sua comida ainda. Vai esfriar.”
Sempre sorrindo de forma misteriosa. Poderia ser alegria, ou tristeza, ou um misto de todos os sentimentos possíveis e impossíveis. Ou simplesmente nada. Não saberia dizer. Que saberia, afinal?
“Nem você.”
Restaurantes são todos iguais, afinal. Um lugar aonde você vai para cumprir formalidades, rituais, tradições. Todos lá são sempre iguais. Ali, uns executivos em reunião de negócios, provavelmente. Lá, um pessoal deslumbrado no happy hour da empresa. E por todos os lados, casais. Casais de todos os tipos. Altos, baixos, louros, morenos, pretos, brancos. Ele vai pedi-la em casamento? Talvez. Ela vai aceitar? Vai, ou não. Aqueles dois vão pisar no preconceito e dar um beijo? Quem sabe. O senhor da outra mesa vai se sentir incomodado com isso? Provavelmente. Mas o futuro de todos é o mesmo. Como se fosse aquilo que chamam de destino. Alguma orientação expressa nos genes. Um padrão de comportamento que uns e outros chamariam de inconsciente coletivo. Não sei ao certo. Mas é tudo muito previsível. E depois? E depois vem o de sempre, aquilo que já conhecemos pelos nossos pais e avós. Só lembranças.
“Acho que devemos brindar por mais um ano. Por todas essas coisas que vivemos juntos!”
Faces coradas. Cachos enrolando. Sorrisos abrindo.
São só recortes, desses que a gente cola nos álbuns de família e guarda no fundo do armário, acumulando poeira. Então, quando chega alguma visita, a gente relembra tudo. Revive tudo. Remói tudo.
Tim tim...
Quando dei por mim estava no carro. Você ia dirigindo, luzes deslizando pelas janelas abertas. Brisa. Neon. Cheiro de álcool. Tudo rodando. E no alto uns vagalumes mortos, pregados no céu escuro. Seus olhos vidrados me ignoravam.
O carro parou em um sinal qualquer. Mini-putas enchiam a esquina. Algumas vestiam mini-saia. Outras, mini-short. Umas calçavam mini-tamancos. Outras, mini-sandálias. Aqui e ali mini-tetas saltavam dos decotes. Tudo mini. Camadas de maquiagem tentavam esconder o medo, a solidão. Tristeza mascarada em sorriso. A infância roubada que escorria por entre as sarjetas. O rubor adolescente soterrado sob camadas e mais camadas de corretivo facial e por meia dúzia de moedas. Dez reais, quinze. Vamos lá! Dê um preço! Aceitamos negociação. Virgem é trinta. Todas elas rodeando o carro. Parecendo zumbis.
Meu estômago revirava. E seu cabelo tudo enrolava. Seus dedos lá, retorcendo os fios. Ritual. Enquanto aqueles pequenos olhos vinham em minha direção, eu procurava algo para me segurar. Tudo girava. E as putas todas gemiam.
“Deviam era brincar de bonecas...”
Bonecas. Marionetes. Sem desejos, só vontades. Sonhos que escorrem junto ao sangue. É o que sobra do estupro. Violência consentida por todos. Fecho os olhos. Gritos. Eu grito. Não quero ver. Mas observo tudo de ouvidos atentos. Ali, no meio de algum beco ou corredor imundo, uma vida fora violada.
Sinal verde. Pingos de chuva no para-brisa. Som de pneu cantando no asfalto. Borrões amarelos cortando a paisagem. Mendigos no meio fio. Drogados entre a sujeira. Tudo embaçando. Tudo girando. Seus cachos rodando. Meu estômago subindo. Nós dois enrolando. Tudo excitando. Tudo gritando. Tudo enrolando. Tudo.
Quando dei por mim já era dia. E era melhor assim.
“Você não tocou na sua comida ainda. Vai esfriar.”
Sempre sorrindo de forma misteriosa. Poderia ser alegria, ou tristeza, ou um misto de todos os sentimentos possíveis e impossíveis. Ou simplesmente nada. Não saberia dizer. Que saberia, afinal?
“Nem você.”
Restaurantes são todos iguais, afinal. Um lugar aonde você vai para cumprir formalidades, rituais, tradições. Todos lá são sempre iguais. Ali, uns executivos em reunião de negócios, provavelmente. Lá, um pessoal deslumbrado no happy hour da empresa. E por todos os lados, casais. Casais de todos os tipos. Altos, baixos, louros, morenos, pretos, brancos. Ele vai pedi-la em casamento? Talvez. Ela vai aceitar? Vai, ou não. Aqueles dois vão pisar no preconceito e dar um beijo? Quem sabe. O senhor da outra mesa vai se sentir incomodado com isso? Provavelmente. Mas o futuro de todos é o mesmo. Como se fosse aquilo que chamam de destino. Alguma orientação expressa nos genes. Um padrão de comportamento que uns e outros chamariam de inconsciente coletivo. Não sei ao certo. Mas é tudo muito previsível. E depois? E depois vem o de sempre, aquilo que já conhecemos pelos nossos pais e avós. Só lembranças.
“Acho que devemos brindar por mais um ano. Por todas essas coisas que vivemos juntos!”
Faces coradas. Cachos enrolando. Sorrisos abrindo.
São só recortes, desses que a gente cola nos álbuns de família e guarda no fundo do armário, acumulando poeira. Então, quando chega alguma visita, a gente relembra tudo. Revive tudo. Remói tudo.
Tim tim...
Quando dei por mim estava no carro. Você ia dirigindo, luzes deslizando pelas janelas abertas. Brisa. Neon. Cheiro de álcool. Tudo rodando. E no alto uns vagalumes mortos, pregados no céu escuro. Seus olhos vidrados me ignoravam.
O carro parou em um sinal qualquer. Mini-putas enchiam a esquina. Algumas vestiam mini-saia. Outras, mini-short. Umas calçavam mini-tamancos. Outras, mini-sandálias. Aqui e ali mini-tetas saltavam dos decotes. Tudo mini. Camadas de maquiagem tentavam esconder o medo, a solidão. Tristeza mascarada em sorriso. A infância roubada que escorria por entre as sarjetas. O rubor adolescente soterrado sob camadas e mais camadas de corretivo facial e por meia dúzia de moedas. Dez reais, quinze. Vamos lá! Dê um preço! Aceitamos negociação. Virgem é trinta. Todas elas rodeando o carro. Parecendo zumbis.
Meu estômago revirava. E seu cabelo tudo enrolava. Seus dedos lá, retorcendo os fios. Ritual. Enquanto aqueles pequenos olhos vinham em minha direção, eu procurava algo para me segurar. Tudo girava. E as putas todas gemiam.
“Deviam era brincar de bonecas...”
Bonecas. Marionetes. Sem desejos, só vontades. Sonhos que escorrem junto ao sangue. É o que sobra do estupro. Violência consentida por todos. Fecho os olhos. Gritos. Eu grito. Não quero ver. Mas observo tudo de ouvidos atentos. Ali, no meio de algum beco ou corredor imundo, uma vida fora violada.
Sinal verde. Pingos de chuva no para-brisa. Som de pneu cantando no asfalto. Borrões amarelos cortando a paisagem. Mendigos no meio fio. Drogados entre a sujeira. Tudo embaçando. Tudo girando. Seus cachos rodando. Meu estômago subindo. Nós dois enrolando. Tudo excitando. Tudo gritando. Tudo enrolando. Tudo.
Quando dei por mim já era dia. E era melhor assim.
6 de junho de 2011
10 Contados
Queria não ter raiva de ti. De olhar para teus cachos vermelhos encaracolando por aí e não sentir asco. Mas não posso, é muito forte. Olho para tua cara, vejo tua face alva corada de pequenas pintas e logo o sentimento vem. Ele surge assim, do nada. Começa pequenininho e vai crescendo, tomando forma e cor, ficando grande e forte. E vai destruindo, devastando e arruinando. Feito tempestade. Dessas de gelo e vento, com muitos trovões, que assustam as criancinhas. Fecho os olhos e conto. Conto até dez, que é para não te assustar.
Um...
Tu disseste certa vez que não era mais como antigamente, que não me olhavas mais do mesmo jeito. Descobri que tu foste embora porque não aguentavas mais me olhar. Vergonha. Nada de olhos nos olhos. Nem ao menos isso...
Dois...
Revivi páginas perdidas. Casos obscuros. Cenas cortadas. Reacendi as luzes que apagaste e eu insistia em acender. Vamos! Vem e tenta jogar sobre nós um véu de escuridão novamente. Não destruas teu castelo de cartas que eu tão amigavelmente ajudei a montar.
Três...
Fui rasgando cada coringa, cada ás de copas e três de espadas da tua base. Implodi tuas paredes e fiz de ti apenas escombros. Era justo, não seria diferente. Fizeste o mesmo de mim.
Quatro...
Vem e vê o que faço dos teus tijolos. Guardo lembranças, acorrento ímpetos. Depois jogo tudo fora. Não era o que querias? Vou montando minha fortaleza e coloco sentinelas aqui e acolá. Aqui, tu não entrarás!
Cinco...
De mala na mão e coração no chão, tu chegaste. Teus cachos serpenteando petulantes nos ombros. Olhos nos olhos, como nunca antes. Lábios nos lábios, para nunca mais. Toco tua face e me dás aquilo que eu queria. E entre teus desatinos mais alucinados jogo ao chão minhas sentinelas. Empunho minhas armas feitas de humilhação e ódio. Abro o portão. É tudo teu. Sou todo teu.
Seis...
Colonizaste minhas ilhas e rochedos mais recônditos. Hasteaste a bandeira de teu templo e catequizaste minha mente. Trouxeste guerra e morte. E enquanto o dia morria no oeste eu caminhava a teu lado, cegamente entorpecido pelo perfume dos amores passados.
Sete...
E dos teus ecos retumbam flores. As flores que um dia eu dei. E teus olhos refletem amores. Amores que nunca terei. E das tuas verdades, sempre capengas, afloram pupilas opacas. Mentiras.
Oito...
E, ao entardecer, vou saber que tuas lágrimas foram só encenação e tuas palavras foram teu palco. Num teatro sem ensaio. Nem protagonistas. Pega tua mala, acende teu coração. Não voltes aqui! Não mais.
Nove...
E enquanto via teus vermelhos cachos enrolando-se no horizonte, o sentimento veio. Veio grande e terrível. Tsunami. E arrasou tudo o que viu. Levando árvores, arrancando raízes, deixando tudo escarlate.
Dez...
Nem teus gritos emudecidos pelo tempo me farão abrandar. Nem teus pedidos mais desesperados me farão sumir. Mas, enfim, acabou. Deixarei teus cachos enroladinhos embaixo da cama e, quando me procurarem, diz que fui por aí, para nunca mais.
Um...
Tu disseste certa vez que não era mais como antigamente, que não me olhavas mais do mesmo jeito. Descobri que tu foste embora porque não aguentavas mais me olhar. Vergonha. Nada de olhos nos olhos. Nem ao menos isso...
Dois...
Revivi páginas perdidas. Casos obscuros. Cenas cortadas. Reacendi as luzes que apagaste e eu insistia em acender. Vamos! Vem e tenta jogar sobre nós um véu de escuridão novamente. Não destruas teu castelo de cartas que eu tão amigavelmente ajudei a montar.
Três...
Fui rasgando cada coringa, cada ás de copas e três de espadas da tua base. Implodi tuas paredes e fiz de ti apenas escombros. Era justo, não seria diferente. Fizeste o mesmo de mim.
Quatro...
Vem e vê o que faço dos teus tijolos. Guardo lembranças, acorrento ímpetos. Depois jogo tudo fora. Não era o que querias? Vou montando minha fortaleza e coloco sentinelas aqui e acolá. Aqui, tu não entrarás!
Cinco...
De mala na mão e coração no chão, tu chegaste. Teus cachos serpenteando petulantes nos ombros. Olhos nos olhos, como nunca antes. Lábios nos lábios, para nunca mais. Toco tua face e me dás aquilo que eu queria. E entre teus desatinos mais alucinados jogo ao chão minhas sentinelas. Empunho minhas armas feitas de humilhação e ódio. Abro o portão. É tudo teu. Sou todo teu.
Seis...
Colonizaste minhas ilhas e rochedos mais recônditos. Hasteaste a bandeira de teu templo e catequizaste minha mente. Trouxeste guerra e morte. E enquanto o dia morria no oeste eu caminhava a teu lado, cegamente entorpecido pelo perfume dos amores passados.
Sete...
E dos teus ecos retumbam flores. As flores que um dia eu dei. E teus olhos refletem amores. Amores que nunca terei. E das tuas verdades, sempre capengas, afloram pupilas opacas. Mentiras.
Oito...
E, ao entardecer, vou saber que tuas lágrimas foram só encenação e tuas palavras foram teu palco. Num teatro sem ensaio. Nem protagonistas. Pega tua mala, acende teu coração. Não voltes aqui! Não mais.
Nove...
E enquanto via teus vermelhos cachos enrolando-se no horizonte, o sentimento veio. Veio grande e terrível. Tsunami. E arrasou tudo o que viu. Levando árvores, arrancando raízes, deixando tudo escarlate.
Dez...
Nem teus gritos emudecidos pelo tempo me farão abrandar. Nem teus pedidos mais desesperados me farão sumir. Mas, enfim, acabou. Deixarei teus cachos enroladinhos embaixo da cama e, quando me procurarem, diz que fui por aí, para nunca mais.
Baseado na notícia “Marido mata mulher e coloca corpo debaixo da cama em Ribeirão das Neves”. Disponível em
14 de abril de 2011
Microconto em 140 caracteres #3
Júlia não gostava de sua aparência. Reduziu o nariz, aumentou os seios, pôs botox nos lábios. A filha nasceu e todos dizem: É a cara do pai!
8 de abril de 2011
Microconto em 140 caracteres #2
João saiu com uma mina estranha. Tinha mais pêlo no peito que ele. Mais barba que ele. Voz grossa. E o pau? Não, do João era bem maior.
7 de abril de 2011
Microconto em 140 caracteres #1
O poeta sentiu um aperto no peito. Começou a escrever. Pensou que era dor de artista, sofrimento metafísico. Morreu de infarto logo depois.
30 de março de 2011
Eu só gostaria de menos falar e mais fluir
Por que eu insisto em falar com ela? Flores, cheiros, gostos e texturas. Um trabalho homérico suportar tamanha canastrice. Bocas vermelhas, rosas e amarelas. Todas abertas cuspindo barbaridades e banalidades acumuladas há milhares de anos. Tenso, permaneço teso à sua frente, os olhos suspensos e a coluna reta. Meus pés não tocam o chão. Ou tocam e não o sinto. Ou o sinto, mas não o toco. Quero apenas sair desse habitáculo frio e escuro. Pra que me estender mais se no fim tudo será igual? Redundâncias infinitas; ando em círculos afundando o chão ao meu redor e levo todos comigo. Clara me disse certa vez que gostava do jeito que eu a olhava. Mentira, sou vesgo. Ela achava graça da maneira insólita com que meus olhos tortos miravam pontos distintos de uma mesma cena. Poético, não? Tenho dois pontos de vista diferentes. Mas na verdade sou um canastrão imbecil que não vê nada além do próprio umbigo. E agora cá estou eu, sentado nesse banquinho desconfortável vendo sua boca pintada se mover para cima e para baixo, deixando à mostra aqueles dentes de Colgate. Seu hálito é bom. Ele me lembra os dias quentes de verão, quando ia para a lagoa me refrescar e deitava na relva deixando o vento tocar suavemente minha face. Alegria. Frescor. Agora só resta o ar condicionado daquela sala e definitivamente não é a mesma coisa; deixa o ar meio mofado, não sei... é estranho. O cheiro de umidade se mistura com o perfume dela, um odor meio adocicado, suave, excitante. Parece com o perfume que ela usou naquela noite, aquela... como ela estava linda... Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! É meu relógio... já são três da tarde. Como o tempo passou rápido. Mas por que estou aqui mesmo? Ah, deixa pra lá. Depois eu faço isso. Hoje não. Não agora que ela está tão linda, tão perfeita... Outra hora, quem sabe. Quem sabe eu não flua mais, ao invés de tanto falar?
15 de fevereiro de 2011
Confissão
“A primeira facada é a mais difícil. Depois dela as outras vêm fácil, você nem percebe. O mais complicado é criar coragem e dar o primeiro passo. Sua mão treme, você transpira muito e o mundo parece girar debaixo dos seus pés. Então você toma coragem e enterra a faca na carne. Sente o osso trincando com o impacto da lâmina. Mas tem que ser com força se quiser matar, de leve não vale. Quando vi já tinha furado o peito daquela vagabunda. O sangue esguichava vermelho vivo e quente, minha roupa toda escarlate, minhas mãos sujas. Ela me olhou, aqueles olhos fundos e grandes de quem não leva nada a sério; tentou falar algo, mas não conseguiu. Levantei a mão com a faca e enterrei de novo e de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo... Quando vi, ela já não se mexia mais, a cama ensopada. Lá fora um cachorro latia, para um carro talvez. No quarto só a luz da TV ligada no Corujão, projetando sombras disformes nas paredes e tingindo o quarto de azul.
Eu pulsava de adrenalina. Aquele cheiro de sangue entrava pelas minhas narinas, fui ficando louco de tesão. Ela lá, sem roupa, desprotegida, só esperando pra ser comida. E eu que não dava uma boa fodida há uma semana. Abri as pernas da vadia morta e fodi com gosto, forte e fundo na sua boceta já fria. Meti na sua boca semi-aberta, enquanto espremia seus peitos. Gozei ali mesmo, no corpo dilacerado. Limpei meu pau sujo de sangue e porra no lençol. Subi na cama e mirei meu pau na cara da vadia. Mijei na sua boca, o fedor da uréia subindo pelo ar.
Deitei na cama do seu lado. Virei ela de lado e dormi abraçado nela. Agora aquela puta era minha, só minha.”
11 de janeiro de 2011
Lixão
Muito longe da cidade,
Onde os néons não alcançam.
Distante dos olhos oblíquos
Dos homens do poder.
Lá está o lixão,
Fétido, podre.
Imerso na imundície:
Lar dos renegados.
Lá no lixão
Um urubu cavouca o lixo
Em busca do seu sustento.
Tem também o cão
Sem dono e sem sina
Em busca de um osso
Pra aplacar sua escassez.
Os porcos estão lá.
Farejando os montes sujos
Em busca de carniça.
Do outro lado ele remexe o lixo.
Não é porco
Não é cão
Não é urubu
É criança
Levanta a cabeça
E grita pro horizonte:
“Mãe, achei nosso almoço!”
17 de dezembro de 2010
Outra Amélia
Amélia é moça rica
Vive num belo casarão.
Estuda numa escola boa,
Tem os melhores brinquedos,
Faz cursos de línguas,
De danças e artes.
Mas tinha um sonho...
Queria ser atriz!
Seus pais concordaram:
- Você será uma excelente atriz!
- Acreditamos em você!
Assim,
Amélia virou atriz.
Foi trabalhar na televisão.
Virou celebridade.
Sua novela faz sucesso,
Inclusive na casa de outra Amélia.
Mas essa Amélia não tem nada de especial.
Não é atriz
Não é rica nem estudada.
Essa Amélia vive na favela.
Não tem marido mas três filhos.
É só outra vítima,
Infeliz vítima das estatísticas.
Amélia
Amélia é uma pobre moça.
Vive na favela.
Não tem estudo,
Não tem emprego.
É mais uma vítima,
Infeliz vítima das estatísticas.
Amélia tinha um sonho...
Queria ser atriz!
Seus pais diziam que era besteira.
-Pra que essa história de atriz?
-Você tem que é que trabalhar.
Assim,
Amélia deixou de estudar.
Virou empregada
Aos quinze anos.
Aos quinze anos...
Sem sonhos...
Sem alegrias...
Sem esperanças...
Hoje,
Amélia é uma pobre mulher.
Vive na favela.
Não tem estudo,
Não tem marido mas três filhos.
É mais uma vítima,
Infeliz vítima das estatísticas.
4 de novembro de 2010
Zapping
Txxxxxxxx... Não importa, Rodrigo, eu te amo! Juro que vou... Txxxxxxxx... Vou fazer essa moeda sumir da sua mão e aparecer no meu bolso. Um... Dois... Txxxxxxxx... Três pessoas ficaram feridas e outras duas morreram na noite de ontem em um acidente na BR-040. Segundo as autoridades... Txxxxxxxx... O eliminado, com 54% dos votos é você, Lucimara. Pode pegar as suas coisas e... Txxxxxxxx... Pintar a parte azul do desenho. Cuidado, crianças. Não ponham a tinta na boca. Ela é tóxica. Agora com o dedo... Txxxxxxxx... Enfia tudo, vai! Isso! Mete tudo! Mais forte... Ahhh... Vai! Com força! Me faz sua... Txxxxxxxx... Cachorra! Safada! Sua vagabunda! Trepa com qualquer um, arruma barriga, sai de casa e agora que a criança nasceu volta com o rabo no meio das pernas? Você tá pensando o quê? Txxxxxxxx... Penso que, para que o país alcance sua maturidade econômica, se tornam necessários investimentos no setor educacional. Sem isso... Txxxxxxxx... Não vamos conseguir sair daqui. A entrada norte da caverna está... Txxxxxxxx... Completamente congestionada. São cerca de 130 quilômetros de congestionamento na Marginal Tietê. O motorista que pretende ir para a região sul deve... Txxxxxxxx... Escolher um tema para a pergunta. Você tem trinta segundos para responder. Se responder... Txxxxxxxx... Sim! Eu aceito casar com você, Carlos Daniel. Meu sonho sempre foi... Txxxxxxxx... Passar o dia na almofada do castigo até que você peça desculpas à Super Nanny. Se não pedir desculpas... Txxxxxxxx... O tráfico de drogas continuará crescendo no país. Nossas fronteiras estão completamente... Txxxxxxxx... Cobertas de chocolate branco. Não é uma delícia? Txxxxxxxx... Mas claro que não, Luíza. Você sabe que eu... Txxxxxxxx... Olhei no coração da ilha e o que eu vi foi... Txxxxxxxx... Ventos de mais de 150 quilômetros por hora. A Defesa Civil do Rio Grande do Sul já... Txxxxxxxx... Foi libertada pelo poder de Jesus Cristo! Ela saiu daquela... Txxxxxxxx... Rua escura e mal iluminada. Cadê a polícia nessa hora? Txxxxxxxx... Está tomando banho. Quer deixar recado? Txxxxxxxx... Diga apenas que eu desejo... Txxxxxxxx... Boa noite... Txxxxxxxx... Um beijo do gordo... Txxxxxxxx...
25 de outubro de 2010
Sem título [IV]
Felicidade condensada em pingos d'água um dia se faz tempestade.
Chove, inunda e invade.
E em corrrenteza leva tudo embora.
Chove, inunda e invade.
E em corrrenteza leva tudo embora.
17 de setembro de 2010
Despedida
Acordou com o toque do celular. Recebera uma mensagem: era dela. Iria viajar à tarde e queria que ele levasse seus pertences que ainda se encontravam no apartamento. Eram algumas peças de roupa, dvd’s esquecidos e livros. Talvez algo mais, mas não se lembrava. Tudo estava no lugar em que ela deixara.
Depois do café da manhã e da leitura do jornal, voltou para o quarto. Ficou relendo a mensagem que ela enviara. Seu dedo corria pelo cursor, seus olhos se moviam rapidamente pela tela do celular. Então era assim que acabava, pensou. Tantos momentos bons jogados fora.
Repassou mentalmente a discussão da semana anterior e o conseqüente rompimento da relação de dois anos. Fora sua culpa, admitia. Mas o que não admitia é que ela deixasse algo tão bobo atrapalhar sua felicidade. Um mal entendido.
Olhou para o relógio sobre o criado mudo. Onze da manhã. Tinha que se arrumar. Ela partiria dentro de poucas horas. Não conseguia reunir forças para se levantar da cama. Lá fora, o céu escurecia e pingos de chuva começavam a pipocar nas janelas.
Tomando coragem, rumou para o banheiro. Abriu o chuveiro e deixou que a água quente escorresse pelo seu corpo nu. Pela porta aberta entrava uma suave brisa. A água quente escorria pelo ralo. Ele mesmo sentia-se escorrendo. Talvez se tivesse feito diferente, se tivesse agido corretamente, não houvesse despedida. O ruído da água caindo no chão entrava anormalmente alto pelos seus ouvidos. Fechou o registro. Mirou o espelho embaçado e sua imagem distorcida, refletida. Com as mãos enxugou o espelho, mas sua imagem continuou embaçada.
Foi preparar um almoço rápido. A comida descia seca e pesada pela garganta. O suco era amargo. A sala, demasiada escura pela pouca luz dos dias chuvosos, estava mais escura e fria. Olhou para os restos do alimento no prato. Permaneceu olhando-os por alguns minutos. Quando retornou à realidade viu que já era tarde. Arrumou-se depressa e juntou os pertences dela.
Saiu e trancou a porta. Esperou o elevador e apertou o botão do térreo. Permaneceu imóvel e sozinho no elevador pelo que lhe pareceu horas. Quando saiu, abriu o guarda-chuva e tomou seu rumo rotineiro. Pelas calçadas, pedestres disputavam os últimos lugares protegidos da chuva. Todos indiferentes a ele e a seu problema, como sempre. Todos preocupados com os seus próprios problemas.
Chegou à avenida principal. Olhou para o sinal de pedestres e parou, esperando que ficasse verde. Olhou para os carros que passavam velozmente pelo asfalto e para os rastros que deixavam na água acumulada. Ele era um rastro. Apenas um rastro na vida dela.
Um ônibus passou, lotado, as janelas fechadas e embaçadas. Quais os problemas que afligiam aquelas pessoas? O que se passava em suas cabeças durante a viagem? Sempre quisera saber. Mas agora, só lhe interessava uma única pessoa.
O sinal mudou e ele se juntou à multidão que tentava atravessar a avenida. Estava perto do seu destino. Quando chegou, encontrou-a parada na calçada, esperando táxi. Não usava guarda-chuva. Seus cabelos estavam ensopados.
- Até que enfim, - Ela olhou-o com desprezo e ele sentiu o remorso corroendo-o por dentro. – Pensei que nunca chegaria. Bem, obrigada por trazer tudo. Foi muito gentil.
- De nada. – As palavras saíam artificiais. Não conseguia parar de olhá-la nos olhos. – Eu só queria... eu só queria dizer que...
- Veja! Meu táxi chegou. – Ela pegou suas coisas, andou para a rua e acenou para um táxi que vinha em frente. Antes de entrar ainda olhou para ele. – Muito obrigada. Cuide-se.
Não podia deixar que ela entrasse sem antes lhe dizer o que sentia. Antes de dizer que sentia muito por tudo. – Espere! – Ela parou no meio do caminho para entrar no táxi e olhou-o com carinho. – Eu só quero dizer que...
Ela só o olhava daquela forma tão meiga quando estavam juntos. Veio à sua mente lembranças dos momentos passados. Do primeiro encontro, quando se beijaram pela primeira vez. Das primeiras brigas. Das primeiras separações. Revendo o passado, suas atitudes lhe pareciam tão idiotas e infantis...
- Eu... só quero... só quero lhe dizer... er... boa viagem...
Ela o olhou uma última vez antes de entrar no táxi e fechar a porta. Ele permaneceu parado, acompanhando o táxi pela avenida. Ainda tinha esperança de que o táxi freasse e ela descesse, corresse pela a avenida e dissesse o quanto o amava. Pura tolice. O táxi não parou, ela não desceu. Apenas continuou seu caminho até o semáforo em frente. Quando parou ele torceu para que ela olhasse para trás uma única vez, só uma. Mas não se virou. Continuou olhando para frente, seus longos cabelos molhados sorrindo para ele pelo vidro traseiro embaçado.
O táxi acelerou quando o sinal ficou verde e virou numa curva para a direita. Ele ficou parado na calçada, a chuva escorrendo pelo seu rosto. Não a veria mais. Era a despedida.
8 de setembro de 2010
O Espetáculo Perdido
Hoje o céu está tão lindoPorém as ruas estão vazias.
Onde estarão todos?
O Espetáculo está perdendo-se.
O rio azul corre livre.
Cor vibrante no cinza pálido.
Onde estarão todos?
O rio metálico corre contra o azul.
A rosa desperta sonolenta.
Rompe as barreiras do concreto armado.
Onde estarão todos?
Em hipnose ante a caixa florescente.
Hoje o céu está tão lindo.
Porém tudo está vazio.
Onde estarão todos?
O Espetáculo está perdido.
Sem Título [III]
Sem me aperceber
Vida nova despontou no leste.
A divina flro transformada em fruto.
O beija-flor no ar suspenso.
Sem me aperceber a chuva cai
E leva consigo o que já foi.
As crianças correm.
Vão sementes,
Voltam flores.
Sem me aperceber a noite cai.
A Lua no alto.
Os amantes eternos separam-se.
As luzes se apagam.
Sem me aperceber...
Não nasci.
E acabei morrendo.
Vida nova despontou no leste.
A divina flro transformada em fruto.
O beija-flor no ar suspenso.
Sem me aperceber a chuva cai
E leva consigo o que já foi.
As crianças correm.
Vão sementes,
Voltam flores.
Sem me aperceber a noite cai.
A Lua no alto.
Os amantes eternos separam-se.
As luzes se apagam.
Sem me aperceber...
Não nasci.
E acabei morrendo.
5 de setembro de 2010
2 de setembro de 2010
A Carta
Ronaldo acabara de voltar do horário de lanche. Era vigilante de um supermercado de Belém. Fazia sete meses que fora contratado. O emprego veio em boa hora. O orçamento da família aumentou agora que sua filha começou a estudar. O salário não era dos mais altos, mas o emprego era honesto.
Todos os dias ele saía de casaa no começo da tarde e pegava dois ônibus até o serviço. Quando voltava de madrugada, eram três ônibus, pois uma das linhas não passava tão tarde. Era uma rotina cansativa. Mas valia a pena. Já era conhecido dos outros funcionários e respeitado pelos superiores.
Hoje era um dia especial. Sua filha completava oito anos. Ronaldo já planejava uma pequena surpresa para ela quando chegasse em casa. Compraria um pequeno bolo e um refrigerante para comemorar. Entraria devagar em seu quarto e a acordaria. Enquanto voltava para o seu setor, apertava nas mãos uma carta que sua filha lhe escrevera no dia anterior dizendo o quanto o amava.
Perto dos caixas uma movimentação lhe chamou a atenção. Chegou mais perto para verificar, a carta segura em mãos. Era um assalto. Seus olhos se encontraram com os de um dos meliantes. Ronaldo vislumbrou um revólver sendo apontado em sua direção. Depois, nada. Só um ruído seco. Não sentiu dor. Apenas caiu para trás. Tinha em sua mão a carta, agora tingida de vermelho.
30 de agosto de 2010
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