8 de abril de 2011

Microconto em 140 caracteres #2

João saiu com uma mina estranha. Tinha mais pêlo no peito que ele. Mais barba que ele. Voz grossa. E o pau? Não, do João era bem maior.

7 de abril de 2011

Microconto em 140 caracteres #1

O poeta sentiu um aperto no peito. Começou a escrever. Pensou que era dor de artista, sofrimento metafísico. Morreu de infarto logo depois.

30 de março de 2011

Eu só gostaria de menos falar e mais fluir

Por que eu insisto em falar com ela? Flores, cheiros, gostos e texturas. Um trabalho homérico suportar tamanha canastrice. Bocas vermelhas, rosas e amarelas. Todas abertas cuspindo barbaridades e banalidades acumuladas há milhares de anos. Tenso, permaneço teso à sua frente, os olhos suspensos e a coluna reta. Meus pés não tocam o chão. Ou tocam e não o sinto. Ou o sinto, mas não o toco. Quero apenas sair desse habitáculo frio e escuro. Pra que me estender mais se no fim tudo será igual? Redundâncias infinitas; ando em círculos afundando o chão ao meu redor e levo todos comigo. Clara me disse certa vez que gostava do jeito que eu a olhava. Mentira, sou vesgo. Ela achava graça da maneira insólita com que meus olhos tortos miravam pontos distintos de uma mesma cena. Poético, não? Tenho dois pontos de vista diferentes. Mas na verdade sou um canastrão imbecil que não vê nada além do próprio umbigo. E agora cá estou eu, sentado nesse banquinho desconfortável vendo sua boca pintada se mover para cima e para baixo, deixando à mostra aqueles dentes de Colgate. Seu hálito é bom. Ele me lembra os dias quentes de verão, quando ia para a lagoa me refrescar e deitava na relva deixando o vento tocar suavemente minha face. Alegria. Frescor. Agora só resta o ar condicionado daquela sala e definitivamente não é a mesma coisa; deixa o ar meio mofado, não sei... é estranho. O cheiro de umidade se mistura com o perfume dela, um odor meio adocicado, suave, excitante. Parece com o perfume que ela usou naquela noite, aquela... como ela estava linda... Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! É meu relógio... já são três da tarde. Como o tempo passou rápido. Mas por que estou aqui mesmo? Ah, deixa pra lá. Depois eu faço isso. Hoje não. Não agora que ela está tão linda, tão perfeita... Outra hora, quem sabe. Quem sabe eu não flua mais, ao invés de tanto falar?

15 de fevereiro de 2011

Confissão

“A primeira facada é a mais difícil. Depois dela as outras vêm fácil, você nem percebe. O mais complicado é criar coragem e dar o primeiro passo. Sua mão treme, você transpira muito e o mundo parece girar debaixo dos seus pés. Então você toma coragem e enterra a faca na carne. Sente o osso trincando com o impacto da lâmina. Mas tem que ser com força se quiser matar, de leve não vale. Quando vi já tinha furado o peito daquela vagabunda. O sangue esguichava vermelho vivo e quente, minha roupa toda escarlate, minhas mãos sujas. Ela me olhou, aqueles olhos fundos e grandes de quem não leva nada a sério; tentou falar algo, mas não conseguiu. Levantei a mão com a faca e enterrei de novo e de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo... Quando vi, ela já não se mexia mais, a cama ensopada. Lá fora um cachorro latia, para um carro talvez. No quarto só a luz da TV ligada no Corujão, projetando sombras disformes nas paredes e tingindo o quarto de azul.
Eu pulsava de adrenalina. Aquele cheiro de sangue entrava pelas minhas narinas, fui ficando louco de tesão. Ela lá, sem roupa, desprotegida, só esperando pra ser comida. E eu que não dava uma boa fodida há uma semana. Abri as pernas da vadia morta e fodi com gosto, forte e fundo na sua boceta já fria. Meti na sua boca semi-aberta, enquanto espremia seus peitos. Gozei ali mesmo, no corpo dilacerado. Limpei meu pau sujo de sangue e porra no lençol. Subi na cama e mirei meu pau na cara da vadia. Mijei na sua boca, o fedor da uréia subindo pelo ar.
Deitei na cama do seu lado. Virei ela de lado e dormi abraçado nela. Agora aquela puta era minha, só minha.”

11 de janeiro de 2011

Lixão


Muito longe da cidade,
Onde os néons não alcançam.
Distante dos olhos oblíquos
Dos homens do poder.

Lá está o lixão,
Fétido, podre.
Imerso na imundície:
Lar dos renegados.

Lá no lixão
Um urubu cavouca o lixo
Em busca do seu sustento.

Tem também o cão
Sem dono e sem sina
Em busca de um osso
Pra aplacar sua escassez.

Os porcos estão lá.
Farejando os montes sujos
Em busca de carniça.

Do outro lado ele remexe o lixo.
Não é porco
Não é cão
Não é urubu
É criança

Levanta a cabeça
E grita pro horizonte:
“Mãe, achei nosso almoço!”